terça-feira, 6 de outubro de 2015

Delitos da Honra (monólogo)

Delitos da honra...
(título provisório)
Gigio Cossaco

Propostas de figurinos:

1 – soldado trajado de macacão de um lado azul e do outro vermelho, com muitos broches espalhados nos dois lados do macacão misturando símbolos da esquerda, direita, ao mesmo tempo em que ironiza todos eles. Entraria marchando com mastro da bandeira yin yan (bem e o mal juntos), para demonstrar tanto ambigüidade do soldado como da sociedade a qual ele representa. A marcha terá ao fundo Bolero de Ravel.

Palco: uma cadeira ao centro. Aos lados paredões sujos com sangue daqueles que foram executados, pena máxima para os desertores.

 Rascunho monólogo

Alguns lutam por idéias, outros por terras, outros por dignidade. E o soldado luta por quê? Para quê? Por quem?

Depois de aprovado em todos os testes físicos, psicológicos e de conhecimentos, finalmente fui matriculado no curso de soldados da polícia. Começava o meu primeiro dia na formação militar. Muitos gritos, pressão e correria na hora de formar o pelotão de recrutas pela primeira vez. A maioria dos presentes nunca tinha sequer pisado num quartel. “Tinham cheiro de paisano”. Por isso o tranco para nivelar todos dentro da mesma sincronia, foi forte e inevitável...

- “É correndo aluno!” Posição de sentido não mexe! Do que você está rindo desgraça?” Vocês vieram do interior porque passavam fome! Aqui só ficarão os fortes! Marcha direito! Você está parecendo um robô! Mais que lixo hein?

E foram nove meses dormindo e acordando naquele alojamento. Às vezes acordava na madrugada, olhava as paredes e me sentia na clausura. Na verdade não era o corpo que estava preso. A alma é que gritava silenciosamente como se estivesse sendo sangrada aos poucos, morte lenta, hemorrágica, agonizante; e o pior, inconsciente. O vigor da juventude nos submete aos saltos de cegueira, na ânsia de vivermos emoções intensas...

No começo acreditei que pudesse de fato representar os cidadãos do jeito que nos ensinavam. Engendravam veladamente em nossas mentes que aquele serviço não era simplesmente um serviço. Mas, um sacerdócio, como se pudéssemos ter alguma espécie de benefício metafísico no exercício de nossas profissões. A todo o momento a sensação era a de rejeitar o afeto, extrair as humanidades. Tudo sutil, muito discreto. Os valores nos eram repassados como se o restante da sociedade ou o próprio Estado tivesse a polícia como paradigma moral, um paradoxo infame. Por que justamente a polícia não deixaria de ser reflexo da sociedade? Os ensinamentos vinham com uma espécie de culpa, algo assim: “Olha, não vai fazer nada errado, agora você um militar, tem que dar exemplo, sempre!”... Com o tempo percebia o quanto era falso tal comparação; até pelas variações nos discursos, dependendo da época ou do interesse de quem os fazia. Nós, militares, ora éramos colocados acima da sociedade civil, como seres especiais ou superiores. Ora, colocados como cidadãos submissos, subalternos e inferiores aos civis, principalmente sobre aqueles que detinham o poder. Ainda que fosse o político mais corrupto e contumaz; se estivesse diante de um cargo no legislativo ou executivo, seria sempre, inevitavelmente “digno” de toda nossa veneração, respeito e submissão é claro!

Questionar nesse meio era quase um convite para a briga.  Na caserna perguntas ofendem e muito; aqueles que hierarquicamente detinham o micro-poder, através duma hierarquia que foi feita para discriminar, intimidar e desvalorar qualquer eventual questionamento. O medo sempre vinha camuflado dos termos disciplina e hierarquia. Respeitá-los significaria caos interno. Não questioná-los traria sobrevida naquele inferno criado pelos homens.

Nem sempre o clima era rude. Ás vezes ria de nós mesmos, e de nossos pares quando eles erravam a direção da ordem unida; por exemplo. Noutras sentíamos certo prazer em rir dos outros, como se quiséssemos rir daqueles que nos instruíam. Era sádico... Ver o companheiro sendo achincalhado. Assédio no militarismo é outra piada.

(Marcha soldado cabeça de papel, senão marchar direito vai preso pro quartel...)

Há uma luta de classes entre Oficiais e Praças... Como se uns fossem deuses e as Praças os demônios. Mas, o que repetiam constantemente durante os treinamentos eram frases tipo: “Aqui nascem heróis”. “Só os fortes sobrevivem”. Alguns sargentos, geralmente os bajuladores, tentavam imitar a voz de comando dos oficiais. Aí era gozação total! Quando acabavam as instruções; nos alojamentos dezenas de recrutas como se fossem papagaios, reproduziam os gritos tentando imitar os superiores: “Anota ele Xerife”! Ele tá rindo de quê?

Aprendemos aos poucos a usar o corpo como se fôssemos o próprio movimento. Era como se arrancássemos à alma e emprestássemos o corpo para um comando qualquer. Sentia-me feito aqueles carrinhos de bate - e - volta. “Senta! Levanta! Sentado um dois!” E eu tinha que gritar ao mesmo tempo em que me levantava “Três, Quatro”!

Certa feita vi colegas de outro pelotão fazendo flexões sob o sol escaldante das onze horas numa segunda de verão. Todos se levantaram com bolhas e várias queimaduras nas mãos. Só porque alguns integrantes desse pelotão elogiaram a liderança do outro pelotão. Isso era inadmissível! No militarismo Maquiavel é guru. “Quanto mais desunida estiver a tropa, mais fácil será para o comandante explorá-los”. Aliás, alguém já pensou no que significa tropa? No dicionário é o coletivo de burro. Lembrei-me daquela música, que se fosse usado o verdadeiro significado, ficaria assim: “Burro de Elite osso duro de roer, pega um pega geral, também vai pegar você”... A mais pura coincidência...

Os valores eram ensinados sempre pela imposição numa cultura de medo, enquanto na prática, as ações internas daqueles que deveriam dar o exemplo, nunca agiam de acordo com aquilo que nos ensinavam. Furavam filas do banco, por serem superiores hierárquicos, compravam fiado nos comércios vizinhos e depois sumiam. Outros pegavam dinheiro com os próprios colegas  e não pagavam. Fora os viciados em caixeta, truco, cachaça. Outros eram viciados em sexo. Aliás, sexo e militarismo caminham juntos. Internamente se reprime com rigor. Fora do quartel as orgias aconteciam feito catarse, para purificar as almas acorrentadas pelos regulamentos. No sexo flertamos a liberdade, ouvem-se gritos, humilhações, ou simplesmente para desafiar hierarquias, costumes, sistemas. Nada é mais subversivo do que o sexo, que sempre nos devolve a alma ao corpo. Nesse jogo os papéis se invertiam e superiores viravam subordinados, autoritários ficavam submissos aos desejos, palmadas e ordens completamente ilegais, cumpridas com servidão e prazer em obedecer. Tinha também as Marias – batalhão, que nos via como peixes num aquário para fisgar... Uma pensão talvez. Ou aquelas mais assanhadas, loucas pela farda, sonhando ser algemadas. As relações humanas serão sempre inexplicáveis...

Dentro desse caos forjado, tentava entender a necessidade, o porquê de se fazer movimentos, gestos perfeitos, para uma sociedade imperfeita. A perfeição nunca será humana. Não nesta dimensão. Hitler até que tentou viver a ilusão da raça ariana. Hans Kelsen ensinou que o direito não deve ser valorado. A aplicação da lei tem que ser literal, pura e pragmática. Aliás, arrancar a humanidade do ser humano foi um dos combustíveis para o nazismo.

Com o tempo a minha rotina no quartel tornava tudo quase automatizado. O relógio biológico já nos fazia acordar sem o despertador. O corpo já não sentia as dores do parto de renascer militarizado. A serpente já havia quebrado a casca do ovo...(som de cascavel)

Daí veio a tão almejada farda, que apesar de lisa, sem insígnias de honra ou glória, seria suficiente para nos distinguir perante os civis.  Poderíamos ser vistos como aprendizes de heróis pelas donzelas; que só eram donzelas em nossas mentes. Eis que veio o batismo da farda. Os xerifes de cada pelotão foram aos alojamentos aos gritos convocando todos para o campo de futebol para estarem fardados dentro de cinco minutos. “É ordem do senhor Tenente! Missão dada é missão cumprida! É correndo!” A maioria foi pega de surpresa com a notícia, enquanto ainda dormia.  É evidente que nem todos chegaram dentro dos cinco minutos. Os que chegaram, faltava um pé no sapato, outro pé de chinelo, alguns chegaram até sem camisa. E a cada um que chegava atrasado todos aqueles que chegaram no prazo; deveriam rolar na grama molhada e sujar suas fardas na lama. Levantar rapidamente e tomar posição sentido, fazendo flexões de braço, sempre sob o comando de um tenente e vários sargentos. Aqueles que fingiam se jogar na lama, eram arrastados pelos outros que já tinham suas fardas completamente encardidas com o lamaçal. Mas, como sempre há os atrasados... Teve um soneca que dormiu tarde demais e não quis ou não conseguiu se levantar de jeito nenhum. Foi traído literalmente pelo sono pesado. De tempos em tempos o oficial responsável pelo ranca, (nome dado ao evento de batismo da farda), fazia contagens para ver quantos estavam presentes, se havia falta, ou se alguém eventualmente tinha conseguido se esconder. Foi numa dessas contagens ao pelotão 01 que o tenente constatou que faltava o mais irônico, polêmico e debochado de todos os presentes, justo ele Soldado aluno Tártaro. O tenente então perguntou ao xerife do 01:"Cadê o Tártaro? Vocês querem ficar até segunda rolando na lama?" Lembrando que era sábado... "Alguém sabe onde está Tártaro?" Três, (os mais gordinhos), de imediato entregaram o colega. E foram encorajados pelos demais. Foi uma sucessão de recrutas gritando, “Eu sei senhor! Ele está no alojamento dormindo. Disse que está passando mal e que não vai descer”! O tenente ficou irado com a afronta, logo de quem mais dedurava e sacaneava a todos. Os colegas aproveitando aquele ódio curtido ouviram o tenente dizer: “Vocês têm cinco minutos para trazê-lo! Quero ver ele nessa poça aqui bem a minha frente. Façam o que for necessário, senão vocês ficarão pagando por ele, até que eu me esqueça. Vocês me ouviram?” Todos os pelotões foram uníssonos: “Sim senhor!” E a partir daí foi uma surra de manta. Vários recrutas, os mais fortes, subiram pé por pé, colocaram sabonetes dentro das toalhas e começaram a dar uma surra no recruta folgado. Todos ao mesmo tempo, cerca de trinta homens espancando, descontando toda a raiva enrustida de ter que levantar cedo, rolar na lama, raiva do oficial e dos sargentos que gritavam sobre todos... É lógico que o culpado, aquele que foi a descarga de todos para extrair o ódio, é claro, tinha um nome: soldado Tártaro. Assim que o pegaram, o rebelde tentou reagir, mas, foi em vão. Apanhou mais e mais até que cedeu as pancadas e foi carregado pelos demais até ao encontro do tenente e jogado na poça de lama, como se fosse um porco selvagem. Enquanto todos os outros gritavam, como se estivéssemos entre soldados romanos ou entre as galeras de Vickings. O escárnio foi geral. E assim terminava o nosso batismo sem recebermos nenhuma benção ou salvação... Apenas lama...

Devidamente fardados, a partir de então os empenhos e quantidades de escalas de serviços aumentaram exponencialmente. E o que era sonho virou pesadelo. Porém, como em qualquer evolução, não há receita para o retorno. Muitos começaram a sentir saudades dos tempos em que não tínhamos farda; em que ainda não “éramos heróis”...

Escalavam-nos nas festas de casamento, folias de reis, festas juninas, e as mais variadas festas de igreja. Quando víamos vereadores nos quartéis no meio de semana, era sinal de que os sábados e domingos já estavam comprometidos. Sargento Tacanho sempre dizia em alto e bom tom: “A polícia não é colônia de férias. Quem entrou sabe ou deveria saber que não haverá mais sábados, domingos ou feriados. Vocês serão os guardiões do povo. E heróis não dormem. Quem não estiver satisfeito passa na seção de recursos humanos e solicite a sua baixa". Com o tempo a quantidade de serviços foi se tornando tão constante que cerca de dez recrutas foram a P1 (seção de Recursos Humanos), pedir baixa. Porém foram convencidos  pelos oficiais ao contrário. Não porque esses oficiais fossem bonzinhos, mas, porque se as baixas se consumassem, teriam que fazer relatórios dando satisfação ao comando geral. Isso não seria nada honroso para quem lustrava o coturno como se fosse a honra. Além de manter o efetivo reduzido, o oficial via sua promoção ameaçada.

Com o tempo alguns colegas foram pegando o ritmo da coisa e aprendendo a dissimular. Todas as segundas e quartas havia aulas de crisma. E quem participasse delas, ficava dispensado de se apresentar em forma as 07hs no pátio. A apresentação dos "recrutas de Cristo" seria as 08hs direto na sala de aula; sem passar pela inspeção de farda, barba e coturno. Porém, um tenente ousou brincar com o poder do capelão dentro do quartel. E numa das aulas entrou na sala de óculos escuro, tridente em mãos e começou a gritar dizendo que iria caçar todos os recrutas cristãos. Era como se o tenente brincasse de Estado Islâmico dentro do quartel. Repetia várias vezes de que ele era o capeta – mor. E dava gargalhada como se tivesse incorporado algum santo ou ingerido algum tipo de droga. Na hora todos os presentes riram. Foi uma festa! Assim que terminou a aula, alguns alunos cristãos denunciaram o fato ao capitão, que ficou furioso e mandou transferir o tenente zombeteiro para outra companhia. Bem longe da má influencia aos seus alunos. O destino do “capeta – mor", quiçá nos quintos dos infernos...

As aulas que mais me davam prazer eram as do direito. Nele eu encontrava algum “heroísmo”, de poder garantir através deste, a cidadania aos injustiçados, ou aos menos favorecidos do sistema. Cidadania que eu ainda não sabia; não percebia que havia perdido.

Nas aulas sobre o Regulamento Disciplinar Policial, havia artigos em total antagonismo com aquilo que eu acreditava poder levar ou garantir ao cidadão. Para me casar teria que pedir permissão ao comando. Para ir ao banheiro também. Isso lembrando o mínimo. Essa contradição foi formando ou deformando as minhas crenças, minha ilusão com a profissão. Era uma espécie de ritual de iniciação muito mais visceral do que batismo da farda. Descobria serviço a serviço que se o cidadão tem dificuldades de exercer a cidadania em sua plenitude, o militar mesmo querendo exercê-la jamais a teria; se tutelado por um regulamento anacrônico e mordaz. E nessas horas me invadia a mente a música do jardim de infância, cuja letra nunca fora tão atual, com letra simples e extremamente profunda:

“marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito, vai preso pro quartel”... Não havia diálogo.

As mazelas do Estado a cada dia ficavam mais expostas. Viaturas eram proibidas de fazer rondas, por falta de gasolina. Por isso sempre ficavam paradas em pontos estratégicos, nas praças. A administração proibia qualquer militar de dar entrevistas, muito menos falar sobre o assunto. Muitos colegas esmolavam em nome do Estado, e pediam peças aos comerciantes para manter o policiamento motorizado.

E o mundo que era dito perfeito do lado de dentro do quartel, se mostrava com o tempo, corroído pelas negociatas. Havia um fogão industrial enorme que ficava no salão de festas. Para arrastá-lo seriam necessários uns seis homens. E qual não foi a surpresa na manhã de domingo; o adjunto foi forçado a dar o anúncio ao comandante da unidade, de que autores ignorados furtaram o fogão de dentro do quartel. Qual vergonha maior haveria?! De repente alguns computadores, televisões começaram a desaparecer nas mais diversas seções. E como havia o fluxo de militares das várias regiões do Estado, até por conta de uma denúncia de outra região, se descobriu que um tenente estava com um dos quartos de seu apartamento, repleto de televisores, computadores, todos com a etiqueta daquela unidade da federação. Onde estaria honra nisso? O delito estava escondido na honra?

Tudo era marcado pela honra! Sinônimo de respeito aos símbolos da instituição, da pátria. Honras militares, sempre foram referencia para qualquer novato ingressante na instituição. Honra são códigos de conduta de determinado segmento. Mas, como pode haver honra em mentir para si mesmo e para o cidadão; que é quem paga o imposto; ao dizer que este terá segurança, se não há efetivo, se não há viatura, se não há transparência na gestão da coisa pública?

Todos nós éramos leigos no direito; e talvez por isso, a surpresa foi muito negativa quando estudávamos as causas da única pena de morte aceita no Brasil até os dias de hoje: para os crimes de deserção em tempos de guerra. Mas, sempre tem aquele que é mais contestador: “Mas como assim? E se o governo for corrupto?” E se a população for contra a guerra?” – “Calma estabanado...isso é se houver uma guerra, e se você desertar. Senão você vai continuar vivo, senão morrer na guerra, é claro"...E o recruta continuou a questionar: “Mas, o senhor viu no Iraque? Disseram que havia arma química e era tudo mentira. Qual a honra de lutar para defender a mentira ou um corrupto? “Santa inocência! O inocente, ainda está em tempo de você pedir sua baixa... Aqui só queremos os fortes! Os destemidos! Militar não deve cultivar o medo". E diante do argumento sempre inquestionável, qualquer questionamento se esvaziava e tudo voltava à calmaria doravante no quartel dos recalcitrantes...

E a música voltava a inundar minha mente:
“Marcha soldado, cabeça de papel, senão marchar direito vai preso pro quartel”...

O militarismo é mais uma das muitas ferramentas de anestesia e padronização social. Assim como a psiquiatria, psicologia e principalmente a educação escolar. Quer algo mais excludente do que a escola e seus dogmas de avaliação?

Dentro de mim havia uma pessoa, um indivíduo dividido entre o rigor da lei, que jamais deveria ser relativizado, em confronto com o ser humanizado, ponderado, que deveria usar a sensatez para resolver os conflitos. Se por um lado as guerras nos mostram a rigidez e força da pólvora, por outro expõe a fragilidade dos refugiados, a fome, a cede e o medo. Não preciso ir a uma guerra para ter noção do abismo entre a moral e os costumes. Como reprimir professores grevistas, reconhecer alguns como sendo meus antigos mestres, e ter de agir com a força do bastão para dissipá-los, dissuadi-los, dispersá-los; sem que surja culpa humanitária? O bem e o mal dentro de mim. O bem e o mal dentro do Estado, que garante a liberdade de manifestação e pune aqueles que se opõe a ele? O bem e o mal no professor que me ensinou a pensar e agir contra os opressores. Onde foi que eles erraram? Onde foi que eu errei? Como coabitar num só corpo o libertário, o subversivo com o repressor, opressor com o sínico? O teórico com a práxis? Como exorcizar os meus demônios, se eles estão junto com meus deuses a traçar os destinos da história, dentro de cada um de nós? Alguém sabe dizer onde está a honra nessas horas? E por falar em deus, vocês se lembram quem o pregou Jesus na cruz? Desconfiam sobre quem matou Tiradentes? Imaginam quem matava os cristãos na Idade Média durante a Inquisição? Quem perseguiu e matou os civis nas revoluções socialistas, fascistas, nazistas? Oh senhor! Nos perdoe os soldados de todo o mundo, pelos crimes durante a história! Liberte-me dessa culpa! Livra-me dessa maldição. Com quem poderei confessar os tantos pecados que vi? Outros tantos que tomei conhecimento? Se a ti senhor eu vos preguei na cruz?

 (*** buscar passagem bíblica Testemunha de Jeová se recusam pegar em armas). Joao, Efésios...

Talvez seja por isso que a mim nem sequer me foi dado o direito de me expressar, sem que algum crime eu cometa. Lembro-me daquele soldado americano que durante a invasão do Iraque, filmou e publicou na internet, o exército do seu país matando civis dentro de uma van com mulheres e crianças. Onde está a honra nisso senhor? O soldado foi condenado à prisão perpétua por traição. Imaginem! Traição à pátria?!  Quem trai é quem obedece ou quem dá as ordens; ou assiste as traições? Para qualquer humanista o governo é quem traiu seu povo. E o que era glória se transformou em estorvo perante uma guarnição difamada. Afinal o que são Direitos Humanos? O que define essa política? Aliás, sempre a maldita política capaz de definir até o que é humanidade, o livre-arbítrio.  O que é a política? O poder cega seus donos e esmaga seus comandados. Políticos que definem quem pode ou não pode falar. E por que dariam voz aos vassalos? Soldados nada mais são que escravos, esteio, sustentáculos de quem está no poder. E sem liberdade de expressão, como hei de me erguer e ostentar o olhar altivo, marcial; se abafo o peso do que sei sobre os bastidores do Estado? Como hei de manter a leveza da alma se na ponta da baioneta está o futuro do meu país e ao mesmo tempo aquilo que me viola, que me obriga a fazer o que não está na minha humanidade? Como hei de manter a leveza da alma se não me perguntaram se quero lutar, matar para defender algo ou alguém que não merece defesa? E se me recusar a usar as armas? Irei morrer pela coragem de dizer não aos donos do poder? Será que eles são os donos da vida? Afinal quem são os donos do poder? É o povo ou aqueles que ele escolhe? Eu sou uma parte do povo; e guerrear contra os meus é como se eu me automultilace, cortasse um pedaço de mim. Como voar num terreno minado sem ser um kamikaze? Não me restam muitas opções: drogas, jogo, sexo. Missa, culto que me restabeleça o nexo da vida. Alguns não conseguem e tropeçam no caminho. Quando se está perdido as pedras parecem gigantes, muros e montanhas imaginárias. Eu tentei socorrer aquela sentinela que atirou contra o peito. Mas, quem de nós nunca perdeu o sentido? Quem nunca se perdeu de si mesmo? Quem nunca se perdeu dos significados que deu a vida? As guerras nem sempre são visíveis, externas... Há um campo de batalha dentro do eu; e um deserto dentro da farda. Às vezes matar ou morrer não faz mais sentido... Fugir do deserto ou viver as batalhas internas? Qual o sentido conquistar medalhas sobre corpos putrefatos; ostentá-las sobre o meu próprio ser indigente, sem moral, dignidade, humanidade, comemorando uma vitória sem honra, onde quem vence perdeu mais do que os que morrem?...

Ninguém é, todo mundo está militar. E quando se está militar o homem incorpora um fardo. Uma espécie de cruz imaginária. E mesmo que não sirva mais aquela Força ou Exército, sempre paira no ar, sob aquela alma, um olhar atento. Seu para com os outros. Dos outros para com o ex - militar.  O olhar é sempre o de quem espera um crime... Ao menos é este o sentimento que alimenta o preconceito de ambos. Dos civis para com os militares e vice versa.

Hoje o estupro é crime; não o foi para os cavalheiros no passado. Na guerra, tão visceral quanto invadir territórios era violar corpos, penetrá-los como troféus da conquista e viver gozo do poder sob as mulheres dos soldados derrotados. E quem iria vigiá-los? Quem iria denunciá-los? Isso era o que hoje conhecemos como cavalheiro...

 O mais perigoso guerreiro é o que luta contra o seu próprio opressor. É o que mata seu comandante se preciso for para cessar as chibatadas. É o guerreiro que abaixa suas armas para não prender seu irmão de farda durante um levante amigo (uma greve). Talvez aí haja um pouco de honra.

Será que a humanidade está preparada para ser livre? Ou será que vivemos uma overdose de libertinagem? Seja como for, o militar é um sujeito amaldiçoado. Um sujeito que não é sujeito de si mesmo.  Mas, quem o é? Militares não podem ter preferências políticas, pessoais, sexuais. Tudo no militarismo é subversão. Tudo é ameaça. Tudo que signifique liberdades. Vivemos mas, não convivemos. Sobrevivemos mas, não vivemos. Ou se está muito acima ou se está muito abaixo. Ou se é superior ou nos querem inferior. No diapasão social somos queridos e lembrados apenas nas maiores tragédias naturais ou sociais. Às vezes até nos requisitam para depor governos ou combater a violência. Chegam a nos pedir que façamos pena morte. É como se vestíssemos toga, e não farda. Ai é que nascem os grupos de extermínios, “é quando nascem os monstros”. Não vestimos toga, vestimos farda. Entre mortos e vivos que perambulam sem fé, embriagados pela valoração em demasia das liberdades que buscam ou que acreditam ter. Essa dicotomia parece uma tela de Salvador Dali...

Quando você olhar para um soldado na rua veja não um ser humano. Ele não é cristão, não é pai, mãe, filho. Ele não é racional. Sua lógica apenas obedece à lei. Leis que são feitas pela política. Política que é eleita por homens. Homens que são imperfeitos. Então não olhem para o militar na rua e lhes exija perfeição, nem discernimento, já que ele não dispõe de livre arbítrio no exercício de suas funções. Soldados apenas cumprem o que está na lei, como se fossem a “tropa” de Hans Kelsen sem o nazismo declarado. Violência urbana é bem mais disfarçada, chacinas são campos de concentração velados. Tão impactantes até que surjam outras em bairros, estados ou países diferentes. Como a fuga de imigrantes que morrem em fronteiras diferentes buscando sua dignidade, lutando por sua humanidade. Desertores são soldados, espécie de imigrantes que já estão praticamente mortos socialmente, mas, que ainda lutam pelo direito de não lutarem. Paradoxo da luta pela defesa da humanização, pelo ressurgimento da honra, o respeito, a vida, efetivação dos verdadeiros Direitos Humanos. É na deserção que está honra, diria Mahathma Gandhi...

Mas para os donos do poder, que não é o do povo, fazer proselitismo político, posar para as fotos, fazer discursos ufanistas talvez lhes devolva os eleitores e os votos. Em cima da honra da não violência, se distorce e se convence que houve uma desonra chamada deserção. E a desonra agora é transformada em honra política. Símbolo de orgulho de uma nação, que não sabe o que é honra e muito menos o que é nação. Vivem os dias e noites, não sabe o que é disciplina, desconhece o que é o militarismo e seus eremitas.

No final do discurso já está feito o paredão, todos os apostos, fardas engomadas, coturno lustrados, microfones, câmaras, ação! Para transmitir ao mundo o quanto é desumana a tentativa de humanizar a disciplina do Estado na forma militar, quando quem está no poder, eu, você, o povo sem saber; é quem assassina os inocentes e alimenta aqueles que se nutrem do poder. A covardia e a traição é individual ou coletiva? A covardia foi do soldado ou é de quem acredita no Artigo 392 Decreto Lei... Na Constituição Federal daquele país chamado Honores?

Na antiguidade a covardia não estava nos soldados que se negavam a lutar; mas, na submissão dos que perdiam a guerra em aceitam trabalhar como escravos para o exército vencedor. Se for matar o próximo, por mero capricho de quem me comanda que eu mesmo me extermine como algo mais digno. Matar a si próprio talvez sirva de reflexo para demonstrar ao próximo o quão estamos doentes. E apesar da aparente doença de quem se autoextermina, talvez seja um espelho para curar os demais. Como a vacina que precisa do veneno para criar anticorpos. Precisamos de excrementos de violência, de desumanidade, para fazermos anticorpos, resistência ao proselitismo, dogmas e as cegueiras sociais... Provar do veneno da mentira para que tenhamos clareza em demonstrar a verdade escondina nas demagogias, mentiras, politicagens, daqueles que falam em humanizar, mas exploram seu povo, roubam a saúde, sua juventude, sua esperança. Inventam crises como se trocassem de roupas, e mais uma vez o povo é quem irá para o front alimentar a sanha megalomaníaca, sustentar as vaidades, para demonstrar quem é o mais medíocre, o que mais desonra, o que mais se disfarça com o discurso da honra, da gloria. A Historia é sempre contada pelos que vencem pelos que se fazem temer, pelos que se alimentam de sangue. Se há honra, que eu a escolha, que eu decida sobre o meu corpo, minha vida, que eu possa ser o vencedor da minha batalha na defesa da minha dignidade, exercer minha discricionariedade. Contar a minha verdade sobre a história de que não há honra em matar, de que não há humanidade em morrer por farda, povo ou sistema algum, se não pudermos viver nossa vida com independência. Não posso contrariar o seu mandamento senhor: "Não Matarás!" Se em vida iremos continuar presos a vontades alheias, então, que minha morte seja a melhor opção, para quem sabe; encontre a liberdade da alma livre do corpo. Talvez lá encontre a honra que tanto perseguimos em vida, mas, que de tão morta só teremos na passagem desta para outra. Perdoe-me senhor... A honra me desertou. “Quisera eu o perdão que destes a Paulo”... Neste mundo desumano quero ser o senhor das minhas vontades, quero ser eu dono da minha honra! Quero ser livre do mundo humano... Quero ser deus!

Apagam-se as luzes, inicia-se o rufar dos tambores, ouve-se o tiro que executa o soldado Tártaro, o desertor da honra...

Acendem-se as luzes e o soldado Tártaro aparece caído e ensangüentado.



                           Fim

2 comentários:

  1. É uma obra ousada. Diria até perigosa se quem a escreveu for um militar, independente do posto ou graduação. Este texto vai duramente de encontro aos discursos sensacionalistas dos coronéis, inflamados pelo amor de si mesmos, contra toda a lógica e contra todos os argumentos. O militar é forjado para perder a individualidade e matar o inimigo declarado, ainda que não o conheça e nada tenha contra tal. Quem lhe diz qual o inimigo é a linha imaginária à sua frente. A fronteira. E no caso do militar policial? Quem lhe diz qual o inimigo, uma vez que o infrator da lei pode ser o seu vizinho, o seu familiar e até o seu parceiro de serviço? O individuo policial militar não possui individualidade...

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  2. Texto cativante, com um discurso simples que facilita o diálogo com o pensamento do leitor (ou ouvinte se executada a peça), mas ainda profundo em seu significado.
    É inevitável a empatia quando lido por um (ex)militar. Hora se identificando com o opressor, hora com o oprimido. Quantos não foram opressores, até de seus próprios pares, como os colegas do Sd Tártaro que tiveram com ele a oportunidade de extravasarem todas as suas angústias e sofrimentos? Quantos ainda não são, como o Sd Tártaro, oprimidos a cada instante por sua fé, por sua orientação sexual, por seu gênero, por seu esforço em manter vida sua liberdade de pensamento...? Enfim.. São tantas opressões...
    Polícia x Sociedade, dicotomia do plano humano semelhante àquela que aprendemos na escola: Homem x Natureza. Nesse esforço em criarmos fronteiras e separarmos a parte do todo impossibilitamos qualquer tipo de solução aos problemas que a parte vier a sofrer. Vivemos uma imensa crise ambiental mas nem essa crise se mostra suficiente para nos sensibilizarmos para o fato de que nós também somos a Natureza. Utilizando-a como uma coisa, como um produto a ser consumido, consumimos a nós mesmos e nossa capacidade de sobrevivência. O mesmo ocorre entre Polícia e Sociedade. São ambos educados a ver no outro um diferente, estranho e não pertencente. Se a Sociedade não percebe a polícia como sua parte, sempre a excluirá como um feto rejeitado pela imunologia do corpo da mulher. Se a Polícia não se vê como parte da Sociedade, nunca será capaz de se perceber a serviço dela. E assim, se vende por soldo (salário) a qualquer um que se mostrar em posição e status de comando. Nunca à Sociedade.
    Fiz algumas pesquisas e encontrei divergências quanto a origem etimológica da palavra tropa, talvez valha a pena conferir, afinal, eu não gostaria que o brilho revelador do texto seja ofuscado por alguma crítica que se atenha a detalhes. Eis a principal estratégias de críticos... E eles são tantos!!
    No mais, parabéns... Muito mais do que um texto a ser teatralizado, vejo nele um esforço confessionário de uma consciência que ilhada em sua própria liberdade busca refugiar-se em sua diminuta dignidade, que insiste em se manter viva.
    Parabéns!

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